|
Opinião Acadêmica
OS NOVOS PARADIGMAS DO ENSINO
Solange Senna
Artigo publicado na ENSAIOS - Revista Acadêmica de Comunicação Social do
Centro Universitário Augusto Motta - Rio de Janeiro,
número 01, páginas 16-19. (2001)
A partir de 1850 nossos paradigmas mudaram radicalmente
com Darwin e sua teoria da evolução das espécies, com Einsten e a relatividade,
com Freud e a psicanálise, com Marx e seu modelo político, com Hegel e a síntese
do pensamento ocidental. Essas mudanças vieram acompanhadas de um avanço
tecnológico, que teve inicio com a Revolução Industrial e se aceleraram com os
meios de comunicação, fazendo-nos chegar, nesta virada de milênio, a um
verdadeiro furacão de informações, descobertas e novos horizontes, em todos os
campos do saber, o que não nos deixa outra alternativa: temos que assimilar essa
nova percepção e visão do mundo com a conseqüente mudança de pensamento e ação.
Só que não viemos assimilando esses saberes que emergiram há 150 anos e nosso
arcabouço de pensabilidade está defasado e obsoleto.
Se acrescentarmos a
isso, as macromudanças advindas da globalização, das novas tecnologias e da
informatização perceberemos que nossa forma de "ensinar " e aprender, isto é, o
transmitir conhecimentos e o estar aberto para ouvir e rearrumar o mundo,
interno e externo, está perigando de cair num vácuo, o que acarretaria nas
próximas gerações ou uma fuga para um tecnicismo massificante ou para uma
alienação histérica, quando, todos reunidos, cinicamente, vamos fingir que somos
o que deveras gostaríamos de ser. Porque é de ser e não de ter que trata a
educação.
Visto pelo lado positivo. estamos vivendo um momento empolgante
na esfera do conhecimento e das possibilidades de transformações.
Do lado
negativo temos que perceber que não há mais espaço para o autoritarismo, o douto
saber, o ensino erudito de fórmulas e conceitos fechados.
Estamos vivendo
a era da incerteza, da teoria do caos, dos paradoxos, do saber compartilhado, da
participação de todos com suas diferenças, não há uma verdade fechada, acabada,
cartesiana, totêmica, somos ambivalentes e a física comprova: a matéria (da
qual somos feitos) é instável.
É o que Edgard Morin chama de pensamento
multidimensional ou pensamento complexo em seu livro O Método, que se opõe ao
pensamento fragmentado. Temos, segundo Morin, que incorporar problemas poéticos,
éticos, estéticos e políticos. Como? Numa reforma a longo prazo que tem na
utopia o seu alicerce. Nós educadores não somos técnicos, somos humanistas e
precisamos entender utopia como a possibilidade de contribuirmos para um mundo
melhor.
Estamos ensinando matérias separadas umas das outras, com idéias
e filosofias que não são aprofundadas e não se elaboram as ligações. A crise, é
bom lembrar, é profunda. E krísis significa momento de decisão.
"Temos
que instaurar o diálogo entre a ordem e a desordem ." (Alfredo Pena-Veja, Entre
o todo e as partes).
Nossos referenciais, modelos e padrões já deveriam
ter mudado; o mundo que percebemos e no qual vivemos e atuamos não existe. Essa
sensação de perda cria, além da perplexidade, angústia, porque inconscientemente
sabemos que esse modelo político econômico-financeiro vai desabar, que essa
busca de "status" e de prazer, essa voracidade intensa e inconsciente leva ao
vazio existencial, não tem sustentação, não tem eixo, nem interno, nem externo,
não tem valores éticos fundamentais.
Para Fritjof Capra "os nossos
paradigmas são sistêmicos, afetam-nos de maneira geral e absoluta, o que implica
uma transformação total do nosso modo de ser e de agir". Não é possível isolar
qualquer coisa em si mesmo, porque tudo está conectado ao resto do Universo,
nossa visão tem que ser no mínimo planetária. ecológica, sistêmica, baseada na
concepção do homem como ser integrado, criativo, interdependente e
consequentemente participante de grupos criativos, solidários e gestores de seus
próprios destinos. Capra aponta cinco pressupostos básicos, que deverão orientar
o pensamento científico daqui por diante: 1) Da fragmentação para a totalidade;
2) Da estrutura para o processo: 3) Da ciência objetiva para a epistêmica (essa
nova abordagem reconhece outras dimensões, além da racionalidade objetiva,
trazendo para a discussão, no campo da ciência, temas antes negados por ela,
tais como : o imaginário, a intuição e os aspectos mágicos); 4) Da construção
metafórica em blocos para o conceito de rede; 5) Da verdade absoluta para a
descrição aproximada.
E o que nós educadores temos que fazer?
Comunicação total, absoluta, irrestrita.
É a "matéria" que nos une.
Walter Poyares em O Carisma da Comunicação Humana nos chama a atenção para o
"fato de que a comunicação é um perpétuo prodígio ". Nesse universo a busca pela
comunicação é um desafio. Quem é o aluno, como ele recebe o que o professor
fala? Informamos, ou deformamos? Como estabelecer uma troca humana de
conhecimentos e de vontade de ultrapassar nossos limites? Como sermos generosos,
como compartilhar dores, alegrias, dúvidas, descobertas e não eliminarmos a
privacidade?
Como fazer para que a mídia não nos soterre com sua
velocidade de informações e imagens sintéticas que nos estilhaçam e fragmentam?
Só vejo um caminho : ficar dentro do olho do furacão.
Isto é, ter um eixo
próprio, recolhimento, visão do todo, silêncio, seleção, discernimento, o velho
conhece-te a ti mesmo, decifra-te/me ou te devoro.
Além de incorporar os
novos paradigmas temos que nos antecipar para os desafios de um futuro acelerado
que já está batendo no nosso nariz. Inventar uma nova ordem, nova ordenação,
novos tipos de organização, de salas de aula (por que não em espaços abertos).
em locais onde se faz o que falamos teoricamente.
Como preparar o
pesquisador para receber o jovem? A maioria deles com mentalidade de
adolescentes, uma minoria com um "amadurecimento" precoce forçado por obrigações
financeiras ou por um casamento que Ihes traz uma sobrecarga de obrigações
estressantes.
Não é o professor sozinho ou a Universidade que têm que
fazer um esforço, é uma decisão estratégica de salvação do homem que se espera
para as novas décadas : inteligente, criativo, integrado, que saiba pensar,
decidir, fazer escolhas saudáveis e eficaz.
Gertrude Stein pouco antes de
morrer perguntou à sua companheira de vida inteira: "qual é a resposta?" Ao que
ela retrucou : " qual é a pergunta?"
O professor é um mero transmissor de
informações? Consegue fazer dessas informações uma ordenação que leva ao
conhecimento? Ele faz as ligações necessárias, pessoais, interpessoais,
acadêmicas? Isso exige tempo, reflexão e troca entre grupos interdisciplinares.
Onde está esse espaço/tempo?
Como mudar essa mentalidade individualista
de competição para a cooperação? Como levar isso para os alunos? Como lidar com
os conceitos de avaliação? Avaliar vem do latim valere, ser digno. Essa
dignidade vem de um processo de integração que passa pelo conhecimento
acadêmico, pelo auto-conhecimento, pela ética, pelo tempo livre para lazer, por
salários que permitam chegar a isso, e principalmente pela saúde física e
mental, que no momento está dilacerada pela luta diária e insana, e pelo
trabalho escravizante para somente sobreviver.
O que queremos para nós?
Aonde queremos chegar, individual e coletivamente?
Solange Senna é Mestre em Comunicação pela UFRJ. Pós-Graduada pela FGV em Administração de Projetos Culturais. Graduada em Comunicação pela UFRJ e Professora da ESPM-Rio.
Referências Bibliográficas
Referências Bibliográficas
PEREIRA, Ma. José de L .de B. e FONSECA, João Gabriel M. - Faces da decisão: as mudanças de paradigmas e o poder da decisão. São Paulo, Makron Books, 1997.
PENA-VEGA, Alfredo. - Da reforma do pensamento à era das redes. Artigo publicado no Jornal O Globo, em 15 de setembro de 1998, sobre Pensamento Complexo.
|