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Ajuda, mas não empurra
Dr. Pedro Franco
Se o título pode parecer indelicado, ainda assim vem de fatos vistos no dia a
dia de um consultório. Este local já viu mais de 63.000 pacientes serem
atendidos, em cerca de 60 anos. E lá vi parente, de preferência filho ou filha,
devotado ao pai. Ótimo, pois vejo idoso, desprezado, indo só, ato muito
lastimável e por todos os motivos e até por violências nas ruas. Só que este
desejável apoio filial, de ajuda, amor, precisa ser bem dosado, nunca ir ao
empurrão. O pai, se não foi o rei da Pérsia, foi algo, teve mandos e agora,
ainda está bem de cabeça, não dá capim à bicicleta, mas tem dificuldades e até
esquecimentos. E ouve: Já pedi várias vezes para você anotar, você não anota e
agora estamos no caos. E o dito é falado com exasperação. Até entendível, só que
não aceitável, face às deficiências do pai, audição, visão, locomoção e até
comunicação. Ele já não é o que foi e esta decadência, própria da idade, já dói
suficiente. Então o filho precisa ajudar, aquele parente merece, só que tem que
saber ajudar e sem empurrar. Empurrar pode dar tombo moral e tombo moral pode
ser tão nefasto, quanto o físico. Ora se pode. Se viver é complicado, o que
dizer de envelhecer e muitas vezes já sem a cara metade, viúvo que está. Olhe,
sei que é exasperante ajudar e o auxílio não ser levado como merece. Toda hora o
filho ouve, me esqueci etc. Sei, pior é não ajudar e em consultório como vejo
idosos desprezados, com desculpas familiares, ou não, e vai só e tendo o
profissional, que quer profissionalmente ajudá-lo, ter que se haver com notícias
ruins, as dar e sem um ombro amigo, familiar, para aparar aquele paciente.
Médico e paciente estão sós em campo, e um familiar, ou amigo,
seria de grande ajuda para o doente, paciente e também para o médico. Efusivos
parabéns ao familiar, amigo, cuidadora, que ajuda. Agradeço, louvo, o esforço e
a dedicação. Apenas, não se zangue, considero-o herói, só não empurre. E
continuo louvando sua atitude e de pé.
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