01/6/2025
Ano 28
Semana 1.419







Adios, consultório



Dr. Pedro Franco

Por que não adeus? Adios me parece menos lúgubre que adeus. Rua Conde de Bonfim 406A, sala 205. Nele 63.056 eletrocardiogramas até ontem. Um Estádio do Maracanã cheio. Se paredes falassem, contariam histórias e nem preciso dizer que na maioria das vezes tristes. Também houve alegres. Alegres como? Eis que se riu nele também, que pacientes melhoraram de seus males. Então é crônica de despedida do 406A-205 e tentarei fugir de texto piegas e de pieguices. Tentarei fugir, ainda que muitas vezes caia do cavalo, o que não é recomendável. Só que em crônica nostálgica vale tudo, desde que não se minta. Omitir pode e deve, porque contar outras vidas seria fora de propósitos e antiético. E um dia o consultório vai ser largado, fechado, até vendido. E por quê? Antes que a Medicina, a minha, se torne obsoleta, vou ao adios. Com saudades. Eternas e não podia ser diferente. Seria aceitável dizer que aquelas paredes, rachadas quando fizeram o metrô Tijuca, tinham ouvido histórias. Paredes, por sorte de todos, são paredes e nada mais. Nada de memórias. Só posso dizer que naquela sala (o consultório tem duas salas, a minha, de frente para a Rua Conde de Bonfim, a de espera, uma saleta para a atendente e o banheiro), houve vida. Que me lembre, foram seis atendentes e de carteiras assinadas e até minha filha Denise, lá pelos seus doze anos, serviu de atendente, por doença da titular. Preço cobrado pela filha, que teve bochechas apertadas por senhora, querendo ser delicada. Volto ao preço: uma revistinha e não ficava à vontade, que ter bochecha apertada não é agradável. Maria Helena, que tem muita porcelana pintada no consultório e sempre cuidou da estética dele e até saiote e blusa feminina para os eletrocardiogramas femininos inventou. Além da filha, vale dizer que o filho Carlos Diniz já atendeu alguns pacientes aqui. Filho e neta alunos em Medicina, neta com retrato, pequeno, na parede da minha sala. Gratíssimo à Família de treze pessoas e nem cito nomes, pois sem exceções, me amparam (gracias – de novo ao espanhol). Volto ao consultório. Que vai ser fechado, antes que minha medicina se evapore e erre com a vida dos outros. Se errei e devo ter errado, nunca quis. Fiz ali amigos, alguns atendidos, julgo que poucos saíram e no não volto mais. Gostei de todos os meus pacientes. Léria! Gostei muito da grande maioria dos meus pacientes e poucos foram rotulados de impacientes. Consultório de horário rigoroso e pasme, sem encaixes e com quarenta minutos para cada cliente. Quem me esperou, depois da hora marcada chegar, por mais de cinco minutos, teve dia raro. Nas paredes do consultório muita pintura de Dona MH e até meu Hospital Gaffrée e Guinle pintou e a bico de pena. Moldura na parede, acima da cama para o EKG. Na sala de espera há aviso em porcelana, anotando que minha pontualidade depende da de cada paciente. Comecei no Meier e depois, comprando o consultório, finquei-me na Conde de Bonfim. Quantos anos aqui? Sou ruim de saber ano. Talvez desde 1966. Logo 55 anos medindo pressões. Certeza de datas? Não, mas é por aí. E agora, espero que, sem choro, nem vela, adeus. Não era melhor pôr adios? Não, agora é para valer. Adeus. Obrigado, amiga/editora Irene, foi gratificante escrever o "Conversa com o paciente".

 


Pedro Franco é médico cardiologista
pdaf35@gmail.com
RJ





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