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Adios, consultório
Dr. Pedro Franco
Por que não adeus? Adios me parece menos lúgubre que
adeus. Rua Conde de Bonfim 406A, sala 205. Nele 63.056 eletrocardiogramas até
ontem. Um Estádio do Maracanã cheio. Se paredes falassem, contariam histórias e
nem preciso dizer que na maioria das vezes tristes. Também houve alegres.
Alegres como? Eis que se riu nele também, que pacientes melhoraram de seus
males. Então é crônica de despedida do 406A-205 e tentarei fugir de texto piegas
e de pieguices. Tentarei fugir, ainda que muitas vezes caia do cavalo, o que não é
recomendável. Só que em crônica nostálgica vale tudo, desde que não se minta.
Omitir pode e deve, porque contar outras vidas seria fora de propósitos e
antiético. E um dia o consultório vai ser largado, fechado, até vendido. E por
quê? Antes que a Medicina, a minha, se torne obsoleta, vou ao adios. Com
saudades. Eternas e não podia ser diferente. Seria aceitável dizer que aquelas
paredes, rachadas quando fizeram o metrô Tijuca, tinham ouvido histórias.
Paredes, por sorte de todos, são paredes e nada mais. Nada de memórias. Só posso
dizer que naquela sala (o consultório tem duas salas, a minha, de frente para a
Rua Conde de Bonfim, a de espera, uma saleta para a atendente e o banheiro),
houve vida. Que me lembre, foram seis atendentes e de carteiras assinadas e até
minha filha Denise, lá pelos seus doze anos, serviu de atendente, por doença da
titular. Preço cobrado pela filha, que teve bochechas apertadas por senhora,
querendo ser delicada. Volto ao preço: uma revistinha e não ficava à vontade,
que ter bochecha apertada não é agradável. Maria Helena, que tem muita porcelana
pintada no consultório e sempre cuidou da estética dele e até saiote e blusa
feminina para os eletrocardiogramas femininos inventou. Além da filha, vale
dizer que o filho Carlos Diniz já atendeu alguns pacientes aqui. Filho e neta
alunos em Medicina, neta com retrato, pequeno, na parede da minha sala. Gratíssimo à Família de
treze pessoas e nem cito nomes, pois sem exceções, me amparam (gracias –
de novo ao espanhol). Volto ao consultório. Que vai ser fechado, antes que minha
medicina se evapore e erre com a vida dos outros. Se errei e devo ter errado,
nunca quis. Fiz ali amigos, alguns atendidos, julgo que poucos saíram e no não
volto mais. Gostei de todos os meus pacientes. Léria! Gostei muito da grande
maioria dos meus pacientes e poucos foram rotulados de impacientes. Consultório
de horário rigoroso e pasme, sem encaixes e com quarenta minutos para cada
cliente. Quem me esperou, depois da hora marcada chegar, por mais de cinco
minutos, teve dia raro. Nas paredes do consultório muita pintura de Dona MH e
até meu Hospital Gaffrée e Guinle pintou e a bico de pena. Moldura na parede,
acima da cama para o EKG. Na sala de espera há aviso em porcelana, anotando que
minha pontualidade depende da de cada paciente. Comecei no Meier e depois,
comprando o consultório, finquei-me na Conde de Bonfim. Quantos anos aqui? Sou
ruim de saber ano. Talvez desde 1966. Logo 55 anos medindo pressões. Certeza
de datas? Não, mas é por aí. E agora, espero que, sem choro, nem vela, adeus.
Não era melhor pôr adios? Não, agora é para valer. Adeus. Obrigado,
amiga/editora Irene, foi gratificante escrever o "Conversa com o paciente".
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