16/12/2021
Ano 24

Semana 1.252



 
ARQUIVO de MÚSICA

 




The Beatles:
Get Back



Cândido Luiz de Lima Fernandes


Uma das maiores características dos Beatles é o quanto a banda conseguiu fazer em tão pouco tempo: a legião de fãs que os acompanhava, a quantidade de discos lançados, shows, aparições públicas e muito mais. Tudo isso foi feito em apenas dez anos, que acabaram marcando a vida de milhões de pessoas e até hoje ressoa de geração em geração. Seguindo essa linha, não é nada equivocado um documentário sobre a banda ter uma duração, produção e dedicação à altura. The Beatles: Get Back é um documentário musical sobre o grupo de rock britânico, lançado na plataforma de streaming Disney+ em novembro de 2021. Dirigido por Peter Jackson, o filme utiliza imagens captadas em janeiro de 1969 por Michael Lindsay-Hogg, incluindo várias sequências inéditas feitas durante os ensaios e as sessões de gravação do álbum Let It Be.

Quando The Beatles: Get Back foi anunciado, a recepção dos fãs foi bem calorosa: Peter Jackson, o cineasta neozelandês por trás do sucesso de “O Senhor dos Anéis” e “O Hobbit”, assumiria o comando de um enorme acervo de imagens, áudios e documentos do quarteto britânico e traria para as telas um novo olhar de uma história que merecia ser contada. Visto assim, o documentário repartido em três longos episódios pode muito bem ser visto como uma carta de amor dos Beatles para o mundo, sobretudo para os fãs que jamais reclamariam de quase oito horas de conteúdos sobre a banda que mudou a indústria musical.

O mais interessante de se assistir em The Beatles: Get Back é justamente todo o cuidado que Jackson teve com mais de 50 horas de filmagens e 150 horas de gravações em áudio do grupo. Uma enorme gaveta de conteúdo que agora pode ser visto em uma série bem contada que mostra nos mínimos detalhes os últimos dias de Paul McCartney, John Lennon, George Harrison e Ringo Starr juntos.

Por mais que tudo tenha chegado "pronto" nas mãos de Jackson, o mais encantador para os fãs é justamente essa proposta de proximidade que The Beatles: Get Back rendeu ao público: o filme (ou minissérie, como o espectador preferir chamar) não hesita em momento algum mostrar o caos que foi todo o preparo e ensaios iniciais para o especial de televisão que a banda realizava fazer; entre divergências criativas, estúdios com má acústica e desorganização na produção. Os fãs acompanham de perto uma cansativa rotina da banda.

A produção, no entanto, pode frustrar aqueles que colocam a banda num pedestal justamente por essa transparência. É possível, no primeiro episódio, ver como os demais integrantes ficam incomodados (e até agindo com indiferença) diante da iniciativa de Paul de organizar melhor a dinâmica dos ensaios, que até então estavam desorganizados e pouco produtivos. A primeira parte, inclusive, acaba de forma bem frustrante: com George abandonando a banda e partindo para Liverpool, deixando os três colegas de mãos atadas.

A paz parece ser retomada justamente no capítulo mais longo do documentário, em que uma reunião é realizada e a banda segue com os planos. A atmosfera agora é outra em Londres: há diversão, entusiasmo e até mesmo faíscas criativas num novo estúdio em Londres, entrando totalmente em contraste com o que foi mostrado na primeira parte do documentário. Peter Jackson faz isso: essa intensidade que faz parte de ser um músico, de integrar uma banda — tudo isso é entregue no documentário, essa imersão que chega sem pedir licença para o público, longe do glamour e das massas de fãs ao redor do quarteto.

O documentário aborda conflitos que surgiram na bem-sucedida carreira dos Beatles. As rusgas existiam, mas o grupo seguia produzindo coletivamente, criando pérolas e hits imbatíveis ao mesmo tempo em que se divertiam e mostravam como gostavam uns dos outros.

É uma obra sensível, que além de rever o final dos Beatles com outra luz, ainda rompe mitos que sempre pairavam sobre a história da banda. Quais? Vamos mostrar alguns deles.

1) Yoko Ono foi responsável pelo fim dos Beatles?

Num dado momento do seriado, Paul McCartney reconhece que John Lennon nem pestanejaria caso tivesse de escolher entre ficar com os Beatles ou com Yoko Ono – e apesar de não transparecer nenhum rancor específico ligado à nova namorada de John, ele inclusive ironiza: “Imagine que daqui a 50 anos as pessoas falassem que os Beatles acabaram porque a Yoko sentou em um amplificador”.

Desde a morte do empresário Brian Epstein, em 1967, aos poucos novos nomes entrariam para o time. E foi aí que John começou a trazer Yoko para as gravações. Os outros três beatles não ficaram muito animados com aquela nova presença, mas, como se vê em The Beatles: Get Back, aos poucos eles se acostumaram com ela a ponto de ela não ser um estorvo. Pelo contrário, ela sentava ao lado de John tranquilíssima e às vezes nem prestava atenção no que o grupo estava fazendo. Em vários momentos, ela conversa com outras pessoas e até participa de uma jam session ao lado de John, Paul e Ringo, num dos vários momentos de descontração do seriado.

Yoko sempre foi vilanizada principalmente pelos jornalistas norte-americanos na época, que faziam piadas machistas e racistas sobre a namorada de John, e pelos fãs, que não suportavam a ideia de um dos Beatles ter terminado um casamento para ficar com alguém que parecia estar o usando como escada para o sucesso.

Yoko não precisava disso: já era uma artista publicada e reconhecida antes mesmo dos Beatles começarem a fazer sucesso e é notória a influência que ela teve em John a apresentá-lo para outras formas de expressão artística. Como se vê em Get Back, a tensão entre os Beatles era maior por causa de sua convivência como um grupo do que por conta da influência de qualquer outro agente externo.

2) John Lennon queria sair dos Beatles?

Embora Lennon realmente não estivesse mais interessado naquela rotina com seus companheiros de banda, ele sabia que os Beatles eram seu ganha-pão e, pelo menos até o início de 1969, não havia cogitado sair do grupo que tinha fundado quinze anos antes, em Liverpool, na Inglaterra.

Acontece que naquele período John Lennon começou a usar heroína, o que aos poucos o tornou alheio ao resto da banda – e de qualquer outro assunto. Seu vício em heroína não é mencionado em The Beatles: Get Back, embora ele seja sempre o integrante da banda que chega mais tarde e às vezes parece absorto em relação a tudo que estava acontecendo. Mas ele só cogita mesmo sair da banda às vésperas do lançamento de Abbey Road, no final de 1969, quando é demovido por Paul McCartney.

3) Paul McCartney era o dono da banda?

Após a morte de Brian Epstein, a disputa entre John Lennon e Paul McCartney torna-se mais acirrada pela necessidade de Paul se provar para John que foi o fundador da banda. A partir de 1967 ele passa a sugerir rumos que o grupo poderia seguir, mas nem sempre era ouvido.

Lennon ainda era visto pelos outros como o principal integrante da banda e isso pode ser percebido pela forma que ele se comporta – e como os outros o acompanham – no último show, no terraço da Apple. Mas o pragmatismo profissional de Paul é evidente – e The Beatles: Get Back mostra isso em diversos momentos. É o baixista quem mais insiste no projeto, que mais puxa novas canções, que mais instiga a participação dos outros.

Mas vê-lo tocando Strawberry Fields Forever, uma das canções mais confessionais de John Lennon, é um claro indício de como Paul respeitava John.

4) George Harrison odiava Paul McCartney?

Uma das cenas mais clássicas do documentário Let it Be, de 1970, mostra Harrison esbravejando contra Paul, dizendo que “eu toco o que você quiser e se você quiser eu não toco”. O clima insustentável do corte do filme original é dissipado na versão extensa, mostrada pela primeira vez em The Beatles: Get Back – a discussão realmente aconteceu, mas, depois disso, eles seguiram gravando, mais um dia de trabalho.

Contudo, George Harrison não estava mais se sentindo à vontade nos Beatles. Não foi o primeiro beatle a deixar a banda – este foi Ringo, no ano anterior - mas sua saída durante as gravações de Let it Be deixou uma cicatriz que não fechou direito.

A insatisfação de George era mais em relação a Paul McCartney devido à forma como ele impunha suas ideias para os outros – algo que também irritava Ringo Starr – e isso fica claro quando ouvimos a conversa entre John e Paul após George decidir voltar para a banda. John e Paul discutem firme, mas sem nunca pegar pesado e John faz Paul perceber o quanto ele incomoda os outros integrantes com seu estilo de fazer música.

A preocupação dos dois com George é a de dois irmãos mais velhos com o caçula. E por mais que George se irritasse com Paul, ele também nunca escondia sua admiração por ele.

5) Ringo Starr não estava nem aí para os Beatles?

Ringo é o beatle que mais sofre com o fim dos shows, em 1966. Especificamente por não ser um compositor – embora tivesse sempre uma canção por disco, ela quase sempre era de John e de Paul ou de algum outro compositor que o grupo gostava.

Sem shows e com os Beatles dedicados ao estúdio, Ringo tinha pouco o que fazer. É clássica sua declaração sobre sua melhor lembrança das gravações de Sgt. Pepper’s foi o fato de ter aprendido a jogar xadrez, porque cada vez acrescentava elementos de percussão às canções dos outros três mais do que tocar bateria.

E a falta de traquejo de Paul McCartney para passar os trechos de bateria que havia imaginado para suas músicas (e Paul é um ótimo baterista, tanto que algumas canções dos Beatles contam com ele no instrumento) criava uma animosidade entre os dois.

Ele gostava de tocar com o grupo e isso é nítido em Get Back. Quando posto no papel de instrumentista em vez de criador – quando o grupo para de criar canções coletivamente - Ringo aos poucos vai procurando o que fazer para além do grupo. Tanto que logo expande sua carreira para o cinema ainda quando era integrante da banda. O que ele não gostava era da rotina de estúdio sem que houvesse a possibilidade de tocar ao vivo.

6) O documentário mostra o fim do grupo

A primeira versão daquelas cenas, que originaram o filme Let it Be, lançado em 1970, foram marcadas como sendo o período em que os Beatles chegaram ao fim, principalmente por conta da edição das imagens capturadas pela equipe de Michael Lindsay-Hogg.

The Beatles: Get Back nos mostra inclusive que o diretor já chegou no estúdio com essa meta: percebendo a animosidade entre os quatro integrantes, ele queria entrar para a história como o sujeito que registrou o fim dos Beatles. Ele tem inclusive uma discussão ridícula com Linda Eastman, que ainda não havia se casado com Paul, sobre o fato de ele ser mais fã dos Beatles do que ela.

O fato é que ele conseguiu o que queria ao lançar o fim após o anúncio do final da banda, algo que só aconteceu no primeiro semestre de 1970, mais de um ano depois das gravações que deram origem ao documentário.

Let it Be é um filme triste e desgastante e distorce o clima entre os Beatles em janeiro de 1969 para dizer que foi ali que a banda terminou. O término oficial acontece no dia 10 de abril de 1970, no dia seguinte após Paul McCartney distribuir cópias de seu primeiro disco solo para jornalistas, quebrando um acordo que tinha com os outros integrantes da banda.

Mas a última vez que o grupo se reuniu voluntariamente para falar sobre composições foi após o retorno da viagem à Índia, no final de maio de 1968, na casa de George Harrison, em Escher, subúrbio de Londres, para rascunhar o que se tornaria o Álbum Branco.

O projeto The Beatles: Get Back foi encarado como um trabalho pelos quatro, que já não tinham o ímpeto de mostrar músicas uns para os outros. O período de gravação do “Álbum Branco” os afastou ainda mais até que Ringo deixasse a banda em setembro de 1968, para retornar uma semana depois.

Irônico é que Lindsay-Hogg grava o exato momento em que Paul percebe que os Beatles vão acabar – com seus olhos enchendo-se de lágrimas, quando, após a saída de George Harrison, John Lennon também não vai ao estúdio gravar. Mas essa imagem só surge no filme de Peter Jackson – e é um dos momentos mais emocionantes da série.

The Beatles: Get Back é um acontecimento para a história da música popular, porque traz à luz uma quantidade enorme de material inédito dos Beatles. E isso porque alcança todos os seus objetivos; mergulhar o espectador no estúdio de ensaio e gravação do grupo mais importante do século XX, observar o processo criativo da dupla mais fecunda produzida pelo pop. E mostrar ao mesmo tempo suas complexas relações pessoais: a camaradagem própria de músicos que estavam juntos desde a adolescência e que haviam vivido algo extraordinário em apenas dez anos, mas nos quais já se entrevê o desgaste do sucesso e a tendência centrífuga que os levará a se separarem alguns meses depois.


Cândido Luiz de Lima Fernandes é
economista e professor universitário em Belo Horizonte;
email:
candidofernandes@hotmail.com


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Direção e Editoria
Irene Serra